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Postado em 30 de Janeiro às 17h44

Exposição fotográfica promove reflexão sobre a imigração de haitianos

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"A Casa é um mar cheio de portos" traz um olhar sensível sobre profissões e permanece na ACIC durante o mês de fevereiro com entrada gratuita

Mais de 4 mil imigrantes haitianos vivem em Chapecó. Eles vieram em busca de melhores condições de vida e, muitos, deixaram suas profissões de lado para trabalhar em outros setores ou buscar uma nova formação no Brasil. Para retratar esse aspecto, a fotojornalista Sirli Freitas fez um ensaio fotográfico documental que está exposto na Associação Comercial e Industrial de Chapecó (ACIC). A exposição “A Casa é um mar cheio de portos” abriu nesta quinta-feira (30), com a presença da comunidade, de empresários e de lideranças políticas e permanecerá até o dia 28 de fevereiro com entrada gratuita em horário comercial.

Contemplada pelo Edital de Fomento e Circulação das Linguagens Artísticas de Chapecó e patrocinado pela Nostra Casa Cultural, a mostra foi construída após uma extensa pesquisa da fotógrafa e um interesse pessoal pelo processo de imigração. “Era uma vontade antiga que eu tinha de fotografar os haitianos, sempre achei um povo com características fortes e quando eles começaram a chegar em Chapecó eu me perguntava como foi esse processo. Sempre quis entender e saber sobre essas pessoas que ultrapassam fronteiras reconstruindo sua vida, com a sua família, construindo a sua nova morada. Para desenvolver esse projeto foram muitas etapas e barreiras, a começar pelo idioma. Aos poucos nos inserimos nas comunidades pelas igrejas e pelas associações e iniciamos essa pesquisa”, contou.

Em um processo gradual surgiu o tema central das fotografias, considerado urgente pelas comunidades haitianas: as profissões que exerciam no Haiti. O resultado é uma exposição composta por 14 fotografias que trazem o olhar da fotógrafa, da curadoria e das comunidades e retratam as profissões que os haitianos exerciam antes de chegar ao Brasil. “A nossa preocupação sempre foi saber e retratar como eles gostariam de ser vistos pela sociedade. E as fotografias tentam mostrar que os haitianos são profissionais qualificados, com duas ou três formações em áreas específicas e que podem contribuir muito mais com a nossa cidade”, enfatizou Sirli.

De acordo com o responsável pelo Núcleo de Imigrações da Delegacia da Receita Federal de Chapecó, Alcione Vergil, a delegacia atende 84 municípios da região que vai de Maravilha até Herval d’Oeste. “Recebemos imigrantes de toda essa área. É um fluxo muito grande: diariamente atendemos de 50 a 60 novas pessoas”, relatou, acrescentando que Chapecó possui um diferencial em relação a oferta de empregos. “O município é referência no Brasil porque tem vagas de trabalho”, frisou. “Chapecó está à frente de outros lugares e a Prefeitura contribui nesse processo. Em dezembro, implementou uma lei complementar que permite que imigrantes possam ocupar cargos, funções e empregos públicos no município”, salientou o presidente da Associação dos Haitianos de Chapecó, Nahum Saint Julien.

O prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, observou que Chapecó foi criada pela força dos imigrantes. “Temos um compromisso com a nossa história. Há 103 anos era um local inóspito. Chapecó acabou entendendo que teria que trazer imigrantes da segunda geração”, observou. Sobre a nova legislação, frisou que não fez mais que a obrigação. “Quem sugeriu a alteração na legislação foi o Nahum que nos sensibilizou e entrou para a história como o primeiro servidor imigrante do município. Nós apenas encaminhamos para o Legislativo. A união da cidade é o nosso segredo”, realçou, acrescentando que os editais de cultura estão abertos até o dia 03 de fevereiro.

A diretora do Grupo Nostra Casa, Roze Dávi, ressaltou o envolvimento das pessoas, entidades e poder público. “O que faz a diferença é a vontade, se a pessoa não tiver vontade de fazer as coisas acontecerem fica mais difícil. Tenho exemplos dentro da empresa, com colaboradores que fizeram movimentos para ajudar os colegas haitianos que estavam começando a trabalhar com nós. Isso se dissemina e é muito importante despertar nas pessoas esse sentimento”.

CONTRATAÇÕES

A empresa Fibratec, de Chapecó, foi uma das primeiras a contratar haitianos no Brasil. O empresário Erico Tormem relatou que em 2011 trouxe sete pessoas que estavam morando no Acre. Ele investiu em passagens e moradia para esses primeiros imigrantes que passaram a integrar o quadro de colaboradores da empresa. “No total, trouxemos mais de 300 haitianos”, frisou.

Em 2013 a Coopercentral Aurora Alimentos começou um programa de contratação de imigrantes. “Iniciamos nossa história junto aos haitianos também indo ao Acre buscá-los. Na época, 85 pessoas vieram para trabalhar na Aurora. Hoje contamos com 3.500 imigrantes. Desses, 3.100 são haitianos. No princípio tivemos dificuldade principalmente com a comunicação, oferecemos aulas de português, e também com a questão da escolaridade, pois vários tiveram que trabalhar em funções distintas das que atuavam. Com o tempo, fomos conseguindo validar alguns diplomas e hoje temos famílias inteiras conosco e pessoas em cargos de liderança. É um programa que deu certo, aprendemos uns com os outros e a mensagem que deixo é que vale a pena, é uma experiência muito rica”, avaliou a analista de gestão de pessoas da cooperativa, Cristiane Batista.

O presidente da ACIC, Nelson Eiji Akimoto, ressaltou que a exposição retrata a realidade e traz à tona essa discussão que está no dia a dia da comunidade e da classe empresarial. “Todos somos imigrantes. Os meus avós vieram do Japão em busca de uma vida melhor e muitos dos habitantes de Chapecó e região são descendentes de imigrantes alemães, italianos, poloneses, entre outros. Nessa trajetória sempre teve alguém que estendeu a mão a essas pessoas em momentos que precisavam. Essa história recentemente, chegaram ano passado ou há um mês com um sonho de ter uma vida melhor e a ACIC abre as portas para essa exposição mostrando um outro olhar sobre essa temática”.

Durante o ano de 2020 a exposição segue um itinerário em outras cidades e espaços. “Queremos levar as fotografias para outros ambientes, inserir esta temática na rotina das pessoas e estimular o desenvolvimento e a construção de um novo olhar sobre o outro”, finalizou Sirli.

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